PATERNIDADE E MATERNIDADE DIVINA EM NÓS
por Pe. Tomislav Vlasic
O título desta reflexão faz logo pensar no matrimónio ou na sua preparação. Todavia, o tema não pode esgotar-se aqui, porque o matrimónio não é a única condição pa-ra se ser pais ou mães.
Pensemos na paternidade e na maternidade divina do homem, a começar pela sua concepção. É fundamental desenvolver a criatividade divina também nas crianças, sem possuí-la, sem ofender, sem matar a acção criativa de Deus nela, mas promovendo-a.
Pensemos na paternidade e maternidade nos jovens, que devem reflectir sobre o seu próprio caminho: empreendendo uma vida consagrada ou matrimonial. Vejamos, então que nesta prospectiva a paternidade e a maternidade divina compreende também os sacerdotes e os consagrados, segundo o modelo de Maria e José, que não geraram na carne, mas são pais e mães de modo perfeito.
Pensemos, por fim, na criatividade de Deus presente em cada alma, um poder que quer manifestar-se, ser livre e encontrar em nós espaço livre para exprimir-Se.
A natureza de cada ser é gerar. Se não gerar permanece frustada. Um cristão que não gera a vida de Deus é manco... A espiritualidade que não gera Deus não está no ponto... A abertura ao dom da paternidade e maternidade divina é, por isso, a disponibilidade de gerar a vida de Deus nos outros.
Nesta perspectiva encontramo-nos frente a duas escolhas: gerar a vida ou gerar a morte. Quem gera a vida deve estar necessariamente unido a Deus e entrar em harmonia com Ele, dado que Deus é a fonte da vida, é a nossa vida. Satanás, pelo contrário, gera a morte, todo o tipo de morte espiritual. É bom, contudo, saber que também a nossa morte física é consequência do influxo do demónio.
Que quer dizer gerar a vida? Significa fazer-se de modo que a vida de Deus corra como um rio, como diz S. João no fim do Livro do Apocalipse. Na sua visão, o Apóstolo via como do Templo de Deus - a Nova Jerusalém - brotava a vida (simbolizada exactamente num rio), que não inquinava a vida presente no mundo, mas a curava e purificava.
Para viver de modo justo a paternidade e a maternidade divina em nós, é fundamental que a nossa vida gere a graça de Deus e a difunda.
Vejamos como através de nós correm continuamente os pensamentos e desejos, sejam a níveis da consciência, sejam inconscientes. Se nos unirmos a Deus dia e noite, a vida divina fluirá em nós. Também se não pensamos, Deus age sobre todo o ambiente, até a natureza sente chegar a graça.
Nós somos o modelo de Maria e José: pessoas que puseram de parte todos os seus programas e desejos e Jesus Cristo encarna-se nelas. Assim acontece em qualquer um de nós: se nos abrirmos de modo incondicional a Deus sem permitir ao nosso eu algum domínio, somos atravessados pelo rio de graça que vem do Céu.
Para receber o dom da paternidade e da maternidade é, antes de tudo, importante que a graça nos envolva e nos mude. Se não estamos regenerados não podemos ser pais e mães da vida divina, porque estaremos privados de tal. Podemos realizar também grandes empreendimentos de inspiração religiosa ou humanitário, pregar uma refinada catequese ou lições de teologia, mas se não estamos transformados em vida de Deus não a podemos transmiti-la nunca.
Se, pelo contrário, permitimos o envolvimento da graça, a transformação e a elevação, nada poderá impedir a vida divina de utilizar-nos como seus canais. Não existe poder algum que possa travá-la, nada pode opor-se, nem tão pouco a morte ou os infernos. Quando estamos regenerados, a vida de Deus expande-se automaticamente e a obra da graça coloca-se em acção, agindo plenamente o sacrifício de Cristo. Então qualquer um de nós se torna um novo Adão e uma nova Eva.
No Baptismo somos tornados filhos de Deus, mas isso não basta. Devemos ser pais e mães, genitores: esta é uma fé adulta. Daqui parte a nossa missão. Mas quem acolhe este dom de Deus? Poucos. Só quem se une completamente a Deus e deseja entrar numa comunhão mística com Ele realiza o chamamento do cristão. A Igreja não tem hesitado nem tardado em elevar aos altares os grandes santos que foram pais e mães; em Madre Teresa de Calcutá e no Padre Pio que acolheram a maternidade e a paternidade. Sentia-se a vida que passava através deles. Contudo, nem todos os santos viveram este tipo de experiência.
Onde como as mães e os pais se podem exprimir? Sabemos pelos mass-media quantos e quais os graves perigos que a humanidade está vivendo hoje. O criado foi-nos confiado a fim de que Deus os governe através de nós; então a oração ardente que deve brotar da nossa maternidade e paternidade em favor de todas as criaturas seja uma oração, através da qual, Deus opere poderosamente com a Sua Graça.
Se o dom da paternidade e da maternidade divina dentro de nós estiver vivo, poderemos claramente reconhecer que somos todos sacerdotes, mediadores, é esta a centelha que recebemos no Baptismo e que faz de nós um povo sacerdotal. O dom está dentro de nós.
A história tem os seu percursos: de crise, de mudanças, de momentos triunfantes. Muitas coisas nos sugerem que está próximo o Triunfo da Santíssima Virgem Maria, da Sua maternidade. As Suas aparições resplandecerão; os tempos estão maduros. As visitas a Medjugorje afirmar-se-ão de modo poderoso, mas querem pais e mães, homens e mulheres que gerem vida nova, a fim de que o Espírito Santo possa agir através deles, como fez com os Apóstolos.
Perguntemo-nos que queremos: as aparições, as visões ou a criatividade de Deus dentro de nós? Qualquer um pode receber as aparições como um sinal que Deus dá ao mundo - uma graça particular - mas todos podem e devem ser criativos, na originalidade em que estão formados. Até quem se sente o último é chamado à plenitude. Não existe separação em Deus. Que queremos escolher: os relatos, as visões, as Palavras ou o Deus vivo que gera o Seu Filho, a palavra viva dentro de nós? Há uma diferença abismal.
Se escolhemos as orações e as devoções que aborrecem Deus e não acabam mais - iniciadas e não terminadas, escutadas e não ouvidas - não receberemos a vida e não saberemos como ela deverá escorrer através de nós. É precioso escolher a pertença a Deus e Ele transmitirá a vida.
Não se poderá então mais dizer: «Onde está Deus?» porque todos o verão. Não se perguntará mais: «Co-mo é Deus?» porque o compreenderemos. Toda a história tende a alcançar o ápice: «o Deus connosco e nós com Deus.
Na Sagrada Escritura, anuncia-se, desde o início, que a Mulher esmagará a cabeça do inimigo. À luz do que temos dito, podemos acrescentar que seremos pais e mães - unidos a Maria - a esmagar a cabeça da serpente antiga. Os que gerarem a vida serão também os que caçarão a morte e aquele que a gerou. É uma bela chamada. A isto chama-nos Deus.